SILVIO LUIS FERRAZ BATAGINI

Em julho de 2001 sofri um acidente de moto, ganhei várias fraturas na perna esquerda e alguns pinos. Mas isso não foi nada. O pior foi acordar da cirurgia e não encontrar mais a perna. Pois é, houve uma infecção e a amputaram. Não foi muito fácil no começo, mas não tinha outro jeito. Sempre gostei muito de esportes, e antes do acidente praticava caça submarina e boxe tailandês.
Quis voltar a fazer alguma coisa. Fui indicado pela psicóloga
para participar da equipe de atletas da AACD, onde fazia
fisioterapia. Comecei a praticar atletismo (arremesso de peso, lançamento de disco e dardo). Sempre ia na academia para ver a galera que me dava a maior força, e foi com esse incentivo que voltei a fazer musculação. O pessoal me ajudava com os pesos e meu psicológico sempre incentivava para continuar e ir mais além. Um dia um amigo que dá aulas de escalada na academia fez um convite: o de também escalar lá. Não dei muita atenção, pois tinha uma competição de atletismo no Rio de Janeiro. Foi meu primeiro campeonato regional, no qual ganhei duas medalhas de ouro e uma de bronze, graças ao apoio da minha namorada, que me acompanhava em todos os treinos e do meu técnico que sempre acreditou em mim. Quando voltei para a academia, o pessoal insistiu na idéia que eu devia escalar, aceitei o desafio para
superar meus limites. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . .. . . . . . .. . . .
Me ajudaram a colocar o equipamento, passei magnésio nas mãos e logo estava escalando. O nervoso em instantes se transformou em adrenalina, o coração acelerou, a respiração ficou ofegante. Dominando agarra por agarra fui vencendo a via e com isso fui vencendo meus medos e meus próprios preconceitos.
Quando se passa a ser deficiente adquire-se esses sentimentos negativos. Tudo o que é novo assusta e causa pânico. No meu caso havia 29 anos que eu tinha as pernas e de repente precisei me virar sem uma delas. A escada rolante de um shopping bastava para me dar pânico: as muletas não faziam parte da minha vida e todas as pessoas do lugar pareciam me olhar descendo a escada rolante. Até isso já não fazia parte da minha vida,
escalar um a parece muito menos. Gostei de escalar na academia e fui com amigos escalar na rocha. A princípio só ver, pois os instrutores estavam levando um pessoal que ganhara um dia de escalada em uma das promoções da Cantareira Adventure Team. Chegando na Pedreira na Serra da Cantareira, eles me convenceram a tentar. Equipei-me ouvi as instruções e comecei a escalar. Só não sabia que aquela atitude me viciaria para sempre.
Superando as dificuldades da via , fui subindo, envolvido pela adrenalina, pela natureza e todos os seus sons - é a mistura perfeita. Não existia estresse, nem problemas do dia a dia, nem deficiência - era só eu a natureza e os meus limites, eu contra eu mesmo, sem ter de provar nada para ninguém. As pessoas não estão acostumadas a ver portadores de necessidades especiais praticando esportes radicais. Na Maria Antônia ( Via de escalada) percebi que existem esportistas que não estão preparados para dividir paredes com portadores de deficiência. Uma pergunta bem na hora em que eu me equipava para o novo desafio me deixou cismado: "Você sabe o que você está fazendo?". Era minha primeira via longa de montanha, aquilo me abalou, não era o que eu queria ouvir, não foi legal pra mim, nem seria para qualquer pessoa que estivesse na sua primeira vez. Mas isso não me impediu, mandei a via, cheguei ao topo e senti mais uma vez o gosto da vitória, apreciando a linda
paisagem com que fui presenteado. tudo a princípio parece difícil e as vezes impossível, mas com vontade, garra e o apoio das pessoas que acreditam em você e que nos façam acreditar,
as coisas mudam. Precisamos ter fé em alguma coisa, acredito que não estamos sozinhos. Foi
pensando assim que hoje sou vice-campeão brasileiro de arremesso de peso, terceiro colocado em lançamento de dardo e e quinto em disco. Fora o esporte trabalho como técnico em refrigeração comercial (autônomo), profissão que já exercia antes do acidente. Um acidente que parecia ser o fim, e pelo contrário, foi o começo de uma nova vida, aliás de duas vidas. Hoje sou pai do Eric, o maior prêmio que Deus poderia ter me dado."