HUMBERTO LIPPO

A deficiência está na mente das pessoas.

Quando morava em Canoas (RS), tinha um amigo portador de deficiência física chamado Cleber. Raramente ele saía. Quando comecei a levá-lo para dar umas voltas pelo centro da cidade e beber umas cervas.
Voltávamos os dois meio bêbados, mal conseguia empurrar a cadeira de rodas.
Na época eu já escalava e foi quando tive mais uma das minhas idéias malucas. Convidei-o para ir ao Itacolomí, municipio de Gravataí, para escalarmos juntos. Mas ele não topou e começou a rir.
Isto ficou na minha mente durante muito tempo e certo dia o amigo e fotógrafo Neco Varella, comentou que iria bater umas fotos de um jogo de basquete de cadeiras de rodas.
Comentei sobre a minha idéia e pedi para ele falar com alguém louco o suficiente para topar a escalada.
Quando ele retornou, me falou que tinha achado alguém interessado, fiquei surpreso. Seu nome: Humberto Lippo.
Liguei para ele e marcamos uma reunião. Meio nervoso e sem jeito fui encontrar o jogador de basquete.
Apresentações à parte, combinamos para fazer a escalada e rapel.
Marquei outro encontro, onde testamos alguns equipos e observamos as dificuldades.
Marcamos o dia D e nos encontramos na frente de seu apartamento. Era sábado.
Humberto estava ansioso, colocamos os equipos no seu carro e partimos. Conversávamos sobre a escalada e o rapel. O Humberto dirigia muito bem.
Eu contava com a ajuda de vários amigos, mas sabia que tudo dependia da boa vontade e coragem de Humberto.
Chegamos no Itacolomí cedo, estacionamos os carros e tiramos a cadeira de rodas do Humberto do porta malas.
Começava nossa aventura, passar por trilhas com uma pessoa numa cadeira de rodas não é nada fácil, mas com a ajuda de todos e algumas cordas, o caminho tornou-se curto.
Chegamos a base da primeira inclinação, não houve jeito, a solução foi carregar Humberto. Fui o primeiro a coloca-lo em minhas costas (cacunda). No começo pareceu fácil, mas à medida que subia, ficava mais difícel.
Fiquei sem forças e o Neco começou a carregá-lo, indo até a base do Itacolomí.
Humberto estava muito disposto e feliz, brincava o tempo todo.
Mas tinhamos que chegar na base do rapel, nos equipamos e continuamos a subida.
Eu dava segurança para o Neco e Humberto, chegando até a pedra do covarde. Começava a maior aventura: a descida.
Meio sem jeito e apreensivos começamos o rapel.
A dificuldade estava em manter Humbeto afastado da parede, pois ele não tem as duas pernas.
Dificuldades à parte, chegamos no negativo. Ele estava mandando bem e o sorriso tomava conta do seu rosto.
Queria total liberdade, deixei ele comandar sua descida e ele não me desapontou.
Conversamos lá, pendurados. Finalmente mais um sonho se tornou realidade para ambos.
Gravamos uma matéria para tv. Obrigado a todas pessoas que ajudaram.Parabéns ao Humberto por sua força de vontade! .. . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . . . .
Elton Fagundes